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PARA A FORMAÇÃO PERMANENTE: uma experiência do século passado

  • Foto do escritor: Frei Basílio de Resende ofm
    Frei Basílio de Resende ofm
  • 14 de dez. de 2025
  • 22 min de leitura

Atualizado: 26 de dez. de 2025

INTRODUÇÃO


UM CHAMADO À CONVERSÃO


Este é um texto, uma reflexão, que pretende contribuir para a conversão, a formação permanente de cada frade da PSC em suas circunstâncias, relações e relacionamentos, no triênio 2025-2927, a começar pelo autor do texto.


O autor do texto, esteve na reunião do SFE, em Carlos Prates, nos dias 27 e 28 de fevereiro de 2025.


Ao ouvir uma descrição de um certo ambiente e atmosfera de algumas falas – queixas, críticas, opiniões não formalizadas de forma socialmente participante e responsável, afinal, o tal fenômeno caracterizado como “fofocas” – justamente no momento histórico pós-capitular do Congresso Capitular, e no início de um tempo novo em nosso projeto provincial de vida e missão, o autor tomou a palavra e disse:


“Em qualquer agrupamento humano instituído, existem divergências e conflitos, e uma rede de comunicação formal e outra, informal; é útil, para o amadurecimento das pessoas, e dos grupos e sub-grupos, responsabilizar socialmente os falantes e formadores de opinião, formal ou informal. Uma falha, na vivência fraterna madura entre nós da PSC, tem sido a ausência de uma mediação eficaz de conflitos, tendemos a ignorá-los, e não chamamos as falas e comentários informais a uma formalidade direta e responsável. Afinal, tem sido a não encarnação, em nossa vivência fraterna provincial, do Capítulo 18 do Evangelho de Mateus: ‘O Sermão da Comunidade ou o Discurso sobre a vida na Igreja’; nele estão todos os fenômenos de uma micro ou macrossociologia: a questão do exercício do poder, ‘quem é o maior?’, o escândalo, a necessária autodisciplina e ascese, a ovelha perdida, os passos da correção fraterna (pessoa a pessoa, diante de uma ou duas testemunhas, diante da comunidade), a oração em comum e o sacramento da união, o perdão das ofensas, a parábola do devedor impiedoso.”


O autor se dispôs a compartilhar o relato de uma vivência e experiência do século passado que, para ele, tornou-se uma fonte inesgotável para sempre usar e exercer a malícia ou prudência de serpente e a simplicidade de pomba diante das questões fraternas (Mt 10,16).


Por uma advertência da Escritura Sagrada, aplicada na Liturgia, o autor começou a digitar estas suas memórias, no 8º Domingo do Tempo Comum, Ano C, cujo Evangelho é o de Lucas, capítulo 6,39-45, que fala do guia cego, do cisco no olho do irmão, da hipocrisia, da árvore e seus frutos, das coisas tiradas do bom ou mau tesouro do coração. Todas essas situações podem dizer respeito ao próprio autor destas reflexões.


Tudo isso aplica-se ao autor deste texto.

 

1.      CAPÍTULO ELETIVO PROVINCIAL 1970


Foi um Capítulo marcante na vida provincial. Foi eleito provincial, um frade que poderíamos dizer, um candidato outsider; era jovem, não era definidor, nem capitular de direito; foi eleito no terceiro escrutínio, por um voto de diferença, em relação ao ex-provincial, candidato, e desejante de ser reeleito.


O Capítulo foi em Santos Dumont. Onde, antes, de 1969, funcionava lá, o internato de seminaristas do nível ginasial. Fechou-se o seminário e os frades continuaram lá; havia gente ociosa.


A partir de 1969, abriu-se lá, o Noviciado com 14 noviços, uns vindo do seminário menor, outros vindo direto de suas famílias para o esse tempo específico de provação para a vida religiosa. Juntaram-se aos outros formandos de votos temporários. E abriu-se o Colégio Santo Antônio noturno, gratuito.


Era um complexo ambiente de diferentes grupos, em 1971: havia a fraternidade de votos solenes (8 frades), uma casa de formação de votos temporários (6 frades), o noviciado (5 noviços), uma casa de aspirantes à vida religiosa laical (8 aspirantes), o Colégio Santo Antônio da PSC conveniado com o Ministério da Educação. 


O autor deste relato, foi procurado pelo Mestre de Noviços, - definidor provincial cessante e candidato a Ministro Provincial no Capítulo -, com expressões azedas e negativas referentes ao Guardião, dizendo-lhe que ele seria o novo Guardião da casa. O Guardião, - por acaso, seu colega de noviciado e formação filosófica e teológica – o procurou com retórica semelhante em relação ao Mestre de Noviços, tipo “ele está liquidado! Você vai ser o Mestre de Noviços lá”.


Logo dá-se a supor e entender a situação e o cenário da casa com duas personalidades fortes, num mesmo ambiente físico e institucional, visivelmente em conflito e competição de influências; um ambiente propício a surgirem grupinhos de um lado e do outro, por motivações diversas, nem sempre éticas ou espirituais; e um núcleo maior de pessoas que desejavam a reconciliação e união das duas personalidades e de seus partidários em vista do ideal de vida e missão, mas não usavam os métodos corretos da crítica direta e autocrítica honesta, a narrativa dos fatos e ditos, o confronto das diferentes narrativas, para chegar a uma verdadeira, autêntica e evangélica correção fraterna e reconciliação.


O novo Ministro Provincial (MP), recém-eleito, procurou o autor deste relato, - encerrando os 6 meses de substituição do Capelão do, então,  Sanatório Santa Isabel, em Betim, e pronto para voltar à sua fraternidade no Vale do Jatobá, - e lhe diz que queria que ele fosse nomeado o novo Mestre de Noviços, em Santos Dumont. Ele perguntou ao MP por que pensava em nomear outro Mestre de Noviços e de formandos de votos temporários, recebeu a resposta: “por resistência psicológica contra o atual Mestre.”. E o MP lhe relatou, que após o Capítulo o Visitador Geral, convocou o Governo Provincial cessante com o novo Governo eleito, para uma reunião com toda a fraternidade de Santos Dumont: Frades de votos solenes, de votos temporários e os noviços. E relatou as críticas feitas pelos frades, sobretudo, os de votos temporários contra o Mestre, que ouviu tudo, calado. No final, ele teria dito: “Eh, a reunião foi convocada para uma análise da situação formativa em Santos Dumont, mas, de fato, foi o julgamento do Mestre dos formandos! ”. E que ele teria dito ao novo MP, que podia decidir o que julgasse mais apropriado; que ele poderia continuar como Mestre ou ser transferido.


O autor deste relato perguntou ao MP, por que não fora nomeado Mestre de Noviços, em 1969? (O MP cessante, ‘muito democrático’, havia reunido em 1968, os 14 candidatos ao noviciado e perguntara-lhes: “Quem eles queriam como Mestre de Noviços? ” Um dos candidatos havia informado a este relator que ‘escolheram 3, mas por eliminação, restou seu nome’). Recebeu a resposta, de que o MP cessante que foi eleito Vice Provincial, o considerava “imaturo e que não teria uma linha de noviciado.“ O autor deste relato, disse ao MP, “ele tem razão nas duas coisas: este relator ‘não é maduro’, ele está em processo de maturação; e ele não teria uma linha de noviciado, - dito ‘aberto’ ou ‘fechado’, na terminologia da época – dependeria do grupo concreto de noviços”.


Mas, disse ao MP, - sabendo que o Vice Provincial, era uma opinião forte na decisão do Congresso Capitular – “Você vai ter dificuldade em me nomear Mestre de Noviços. Considere esta conversa como se não existisse. Posso ir para Santos Dumont ou voltar para o Vale do Jatobá”.


Foi nomeado Guardião.

 

2.      SANTOS DUMONT 1971-1972: UM LABORATÓRIO DE FENÔMENOS, DINÂMICAS E PROCESSOS DE CONVÍVIO FRATERNO

 

Os valores abstratos que professamos:

  • O Evangelho (a Palavra de Deus)

  • A Regra e a Vida dos Frades Menores

  • As CCGG, os EEGG, os EEPP e as diferentes RATIOs

  • NOSSAS CELEBRAÇÕES, RITUAIS E HOMILIAS

     

Todos esses valores dos discursos oficiais e celebrativos precisam ser encarnados, precisam se tornar existenciais, históricos, em nossa vida ordinária, em nossas relações interpessoais, em nossos pequenos grupos da vida ordinária de irmãos em contemplação e missão, mas tão divergentes em temperamentos individuais, em ideologias, em cultura e estilos de vida, em cosmovisão, em visão de sociedade, de eclesiologia e pastoral, de modos de evangelizar, de espiritualidade, de santidade e até de moralidade pessoal.

 

Em todo agrupamento humano, em cada instituição, há uma rede formal, oficial e institucional de informação e comunicação; há, sempre, também, uma rede informal, não oficial, existencial de comunicação e de informações – as opiniões, os pequenos grupos de opiniões, os comentários subterrâneos -. Temos que estar conscientes desse fenômeno. Ter a prudência, a sabedoria, o discernimento e a paciência para lidar com ele.

 

(Os relatos que seguem, podem ter a característica de uma memória. Mas são um laboratório de fenômenos de uma microssociologia e uma fonte de aprendizado do relator. Uns poucos agentes citados, são vivos; a maioria deles, já estão libertados dessa nossa frágil e limitada condição humana e terrestre.)

 
A)     UM CASO ESPECÍFICO: UM FORMANDO DE VOTOS TEMPORÁRIOS

Em janeiro de 1971, no retiro de renovação dos votos, que era anual, o MP, a cada fim de dia, se reunia com o Mestre cessante e o novo Mestre – autor destes relatos -, orientador do retiro, que iniciaria seu acompanhamento dos frades de profissão temporária, após a renovação dos votos.


O MP perguntou ao Mestre: “O Frei J, pode renovar seus votos? Ele mostrou-se apto para a renovação?”


O Mestre: “Não sei. Ele não me procurou nenhuma vez, neste ano, para conversar comigo. Para mim, ele é um aproveitador; só está aqui para estudar. Na minha opinião ele não crê na Eucaristia. ” (Opinião deste relator: Isso já seria um motivo claro para o contraindicar para renovar seus votos)


Este relator perguntou: “Você o chamou para conversar? ” (Na sua opinião, o Mestre foi omisso; ao menos uma vez por semestre, o Mestre deveria chamar cada formando para uma entrevista pessoal)


Resposta: “Não. Eu deixo livre para a iniciativa e decisão do formando.”


Então, o MP disse ao Frei J, que deveria procurar para uma conversa, durante o retiro, o Mestre cessante ou o novo Mestre, como condição para ser aceito para a renovação dos votos.


O formando, procurou o novo Mestre, que lhe disse: “Quero ouvir você; como foi sua vivência neste ano passado: como você cultiva sua experiência de Deus? Como foi sua convivência fraterna? Como estão seus estudos e suas relações acadêmicas? Como estão seus trabalhos e serviços no Colégio e na pastoral (Ele era o secretário do CSA)? Quero ouvir sua autocrítica, sua autoavaliação. E se você quer renovar seus votos por mais um ano?”


Após ouvir o formando e receber seu desejo de renovar os votos. Disse-lhe: “Desculpe perguntar-lhe isto: Você crê na Eucaristia e na Presença real de Cristo na Eucaristia? como você explica esse mistério? ” (Naqueles tempos, havia duas posições teológicas, para ‘dizer’ o mistério inefável: transubstanciação e transignificação).

Respondeu que acreditava na Eucaristia e que queria renovar os votos; mas, que não queria ficar nesta incerteza se iria ser aceito ou não para renovar seus votos até o último instante.


O novo Mestre lhe disse que no próximo ano, lhe informaria a decisão dos formadores sobre sua aceitação ou não, já em setembro.


Em seguida, na reunião, à noite, após a conversa com o formando, o novo Mestre informou ao MP que havia sido procurado pelo Frei J, e que em sua opinião, ele poderia ser aceito para renovar os seus votos temporários.


Ele renovou seus votos, juntamente com seus colegas. E o ano correu, normalmente, com os ritos, rotinas, situações e tarefas usuais de uma fraternidade de formação inicial. Ele e seus colegas faziam seus estudos acadêmicos em Juiz de Fora, pela manhã, e trabalhavam no Colégio Santo Antônio, à noite, no Seminário, dando aulas. Ele estudava Direito e trabalhava como o secretário do Colégio.


Em setembro, numa reunião da equipe de formação, em Belo Horizonte, o Mestre faz seu relatório  sobre a situação da casa de formação e dá o seu parecer sobre o processo de cada um dos formandos e se os considerava aptos para renovar seus votos, inclusive o Frei J.


Então o frade que havia sido o Mestre do tal formando, no ano anterior, dá o seu parecer contrário à sua renovação dos votos, dizendo que o parecer positivo do Mestre era por amizade pessoal a ele e não por critério objetivo; repete que o secretário do Colégio estava ali só para estudar, e não por vocação religiosa. E faz, - só então!, - uma acusação grave ao formando, dizendo que no Capítulo das Irmãs Recoletinas, em dezembro passado, tempo no qual era seu formador, ele havia agredido sexualmente uma Irmã.


Quando ele falou isso, um membro da equipe, que não morava na fraternidade de Santos Dumont, deu um murro na mesa e explodiu: “Mandem, de uma vez, esse rapaz embora!”


Aí, o atual Mestre, interveio, firme: “Não somos nós, aqui desta equipe, que não convivemos com ele, que vamos dar o parecer decisivo sobre sua aceitação ou não, mas, sim, a fraternidade local.” E disse ao ex-Mestre, que era muito grave essa afirmação dele, e perguntou-lhe por que não agiu no momento?


Voltamos para casa.


O Mestre, que era, também o Guardião, convocou os frades de votos solenes e pediu-lhes que descrevessem a conduta do tal formando durante o ano, pontos positivos e negativos, e votassem se eram favoráveis ou não à renovação de seus votos. A maioria foi favorável.


Chamou o formando e lhe disse que não tinha certeza se ele seria aceito pela Província para renovar os seus votos. O jovem frade, então, disse que nesse caso ele preferia sair, a ter o estigma de não ter sido aceito.


Foi-lhe dito que desse um tempo, até a próxima reunião da equipe de formadores. Mas que precisava de uma palavra pessoal da sua parte: “No ano passado, houve dois Capítulos na casa, um, dos frades e outro, das Irmãs. Em um dos dois, houve algum descontrole de sua parte, algum gesto ou atitude contra um dos seus votos?”  Ele pensou uns instantes e disse que no Capitulo dos frades, o Guardião, havia pedido a ele que cedesse o seu quarto a um capitular, e arrumasse um colchão para ele dormir numa sala de aula. Disse que perguntou ao Guardião por que pedia só a ele e que não iria. Depois, voltou atrás e obedeceu.


Foi-lhe dito, que o fato possível, aconteceu no Capítulo das Irmãs. Ele pensou, e disse que não teve contato com as Irmãs; que ia para a secretaria, sem ter contato com as Irmãs. O Mestre ainda insistiu: “O problema não está relacionado com o voto de obediência, mas com o voto de castidade, com o amor; aconteceu algum descontrole seu, e você deu um tapa ou um beijo numa Irmã?”. Ele reiterou a resposta: “Não! Eu não tinha contato com as Irmãs!”


O Mestre lhe agradeceu. E encerraram a conversa.


Uns 8 dias depois, o formando procura o Mestre e lhe diz que vai deixar a Ordem e pedir dispensa dos votos; que uma colega de turma, notou que ele estava triste e perguntou o motivo; ele lhe disse a situação; ela era filha do prefeito de Juiz de Fora, e seu pai arranjou um emprego para o colega.

Ai, então, quem reclamou do Mestre, por ter precipitado as coisas, foi o ex-Mestre e Diretor do Colégio, que perdera o seu secretário gratuito e teve de contratar uma secretária. Afinal, quem era o aproveitador?


(Esse caso foi citado mais pormenorizadamente, como exemplo e algo emblemático dos mecanismos e processos institucionais de decisão sobre vidas e vocações).


 
B)     OUTRO CASO: UM FOCO DE FOFOCAS E CONFLITOS

Num agrupamento humano de umas 27 pessoas, tão diferenciadas, é normal haver o grupo formal instituído e grupos e sub-grupos informais em funcionamento; e também redes formais e informais de comunicação e informações; e linguagens diversas.


A boa comunicação, que é verbal e não verbal, numa abordagem psicológica, afirma que ela precisa ter 4 características:

1. Deve ser aberta,

2. Deve ser direta à pessoa interessada,

3. Deve ser congruente, em seus aspectos verbais e não verbais, ou, ao menos, sincera em relação ao que se pensa e sente,

4. Deve ser adequada, ao momento, à circunstância, aos valores, à ética.


Um caso, de um foco de fofocas e intriga, baseado em maus entendidos.


O novo Guardião estava com um jovem frade de votos solenes, estressado, expansivo e teatral. Foi muito útil ao clima fraterno por seu temperamento sensível e explosivo. Estava com o Guardião e lhe disse: “Isso aqui é uma merda! Cada pessoa quer comer as outras! Não há fraternidade nenhuma aqui!"


O novo Guardião lhe disse que se existe uma merda, ela precisa ser limpada e que uma merda bem administrada pode ser um fertilizante. E perguntou-lhe: “O que você está percebendo que está errado aqui?” Ele respondeu: “Tudo!”. O Guardião: “Tudo, é muito genérico. Especifique alguma coisa que está errado; chame algumas pessoas que estão percebendo e comentando com você o que está errado e vamos começar juntos a fazer a diferença aqui dentro!”


Ele chama dois jovens de votos temporários. Um, de personalidade forte e agressiva, o outro, uma personalidade frágil mas muito influente. E se reuniram, os três e o Guardião; este lhes disse: “Gente, eu estava com Frei JC e ele disse que está tudo errado aqui, que não há fraternidade; eu pedi a ele que reuníssemos um pequeno grupo de atuação para ver o que está acontecendo de errado e começar a fazer a diferença; e ele chamou vocês dois. Então, o que está acontecendo?  Vamos por as cartas na mesa!”


O de temperamento assertivo e agressivo interpelou o Guardião: “Pode mesmo falar? O senhor foi azucrinar os ouvidos da Garrincha, sobre a avó dela?” Guardião: “Eu fiz isso?” Ele: “A dona G não falou com o senhor?” Guardião: “Falou, mas você sabe o que lhe disse?”


(Os fatos: O Guardião chegou para o almoço, e foi chamado pela dona G, nervosa e ansiosa, na dispensa que lhe disse: “Frei, proíbe a Garrincha de ficar telefonando toda hora para a Santa Casa; o Frei A falou para ela ligar...” De fato, o Frei A, na véspera havia pedido ao Guardião, para levar a avó, da jovem empregada do Seminário à Santa Casa. Ele, muito paternalista, falou com a jovem que ligasse para saber notícias de sua avó. A dona G, não gostava dessa atitude protecionista do frade.)


O Guardião informou-os que perguntou à dona G, “Quantas vezes ela ligou, nesta manhã?” -dona G: “Uma vez” -Guardião: “Uma vez, não é toda hora. Ela pode ligar também, à tarde.”


Aos três, o Guardião os informou de que à noite, ao levar as cozinheiras à cidade, levou também a jovem funcionária. Levou as senhoras primeiro e ficou só com a jovem e perguntou-lhe, como estava sua avó; a jovem respondeu que estava bem. E perguntou: “Você ligou para a Santa Casa? Quantas vezes ligou?” – A jovem: “Uma vez.” – O Guardião: “Muito bem! Amanhã também você pode ligar.”


E o Guardião interpelou os três: “Muito bem. E o que mais está errado aqui, nesta casa?” O grupo não tinha mais nada. Era só esse mal-entendido; o ‘tudo errado’, era só isso.


(Mas, desse episódio, o que se observa que está acontecendo? Duas coisas:

1. A disputa de poder entre o Frei A - amigo, protetor, ‘salvador’, paternalista em relação à jovem empregada – e a dona G, a gestora da cozinha;

2. A indústria e a rede de informações mal verificadas na fonte – o que realmente aconteceu? – e se formam opiniões imaginárias e fantasiosas (as fofocas) que envenenam o ambiente fraterno e comunitário).

 
C)      OUTRO CASO: UM GUARDIÃO GARANHÃO

Uma líder da Emater de Alto Rio Doce, levou três jovens a Santos Dumont, para serem atendidas pelo Guardião. Havia agendado com ele. Chegariam no sábado para o almoço e ficariam hospedadas no Seminário até na segunda feira.


No sábado, à tarde, ele atendeu uma delas, de um lado da piscina, ficando as outras do outro lado, com os noviços, conversando e cantando. Iria atender as duas outras no domingo. Ele celebraria na cidade, e deveria chegar pelas 08h30; mas houve um pedido extra de missa, e ele chegou às 10h30.


A líder estava indignada com o Guardião, interpretando que ele estava de má vontade em atender as moças. E decidiu ir embora com as moças. O Guardião chega, e o Frei R estava com o carro ligado, as malas das moças, no carro, para leva-las à rodoviária. Ela repreendeu o Guardião, dizendo-lhe que as três vieram para serem atendidas por ele, e receberam pouco caso de sua parte. Por isso, iam embora; não ficariam para segunda feira.


O Guardião, deu ordem, para desligar o carro. E foi atender as duas outras no parlatório do Seminário. Almoçaram, e depois do almoço viajaram.


Na terça feira, o Frei R, ecônomo da casa, informou ao Guardião que iria à cidade fazer umas compras e que teria algo a lhe dizer, e iria dizê-lo por confiar nele: “O Frei A, estava escandalizadíssimo com ele; disse-lhe que ‘uma pessoa que não mente o havia visto ‘lavando a égua’ com uma das moças; imagine só, o meu formador!’ (E isso havia sido dito na mesa do almoço; um jovem frade presente, Frei RA, disse: ‘gente, se isso acontecer um dia comigo, eu quero que vocês falem comigo! ’ )”. O Guardião baixou os olhos e respondeu: “Eh, o senhor é testemunha de que a gente apanha dos dois lados: das moças, por não lhes dar a atenção desejada, e daqui de casa, por dar uma atenção muito especial !!! O Frei RA foi muito correto, esse é bom!”. E disse ao Frei R: “O senhor tem que trazer esse Frei para falar comigo; como ele pode participar de uma Eucaristia que eu presido, com essa ‘informação’ a meu respeito? ” O Frei R: “Pois é! Eu lhe disse isto, que tinha que falar com o senhor. E ele disse que tinha receio de que o Guardião tivesse um infarto e morresse.” O Guardião, irritado: “Se morrer que o enterrem! Essa falsa caridade! Pergunte a ele: havia 4 moças hospedadas aqui; - ‘com qual das 4? e onde?’ a pessoa que não mente viu o fato? Diga a ele: ‘nós temos que proteger as moças que vêm aqui e desmascarar este garanhão’! ”

Afinal o Frei R, recebeu a permissão do Frei A, para falar com o Guardião, que era também o seu Mestre. O Mestre procurou o Frei A, e lhe disse: “Havia 4 moças, eu conversei com uma lá na piscina, com os noviços e as outras lá, e com duas outras, conversei no parlatório. Com qual das 4 moças e onde, a pessoa que não mente presenciou a cena? ”.


Afinal era com aquela com quem conversou na piscina. O Guardião, procurou ‘a pessoa que não mente’, procurando entender o que ele viu? Afinal, ele não viu nada. Ele ouviu de outra que estava do outro lado do morro, e viu o Guardião ouvindo a moça, de um lado da piscina; não viu as outras moças e noviços, do outro lado, atrás da moita de bambu; e ele imaginou o resto.


(Assim surgem as narrativas que escandalizam e são divulgadas, se não formos verificar os fatos com as pessoas envolvidas.)


 
D)     OUTRO EPISÓDIO: NARRATIVAS PARANÓIDES

Entre o grupo de aspirantes à vida religiosa laical, o Guardião encontrou lá, um rapaz de 32 anos, enfermeiro, candidato do Rio de Janeiro. Ele havia sido aceito lá pelo Mestre anterior; que dizia ao novo Mestre que deveria encaminhá-lo para sua casa. Mas este não tinha motivo para tanto.


Uma noite, o candidato procura o Mestre e lhe diz uma narrativa complicada: diz que foi para lá com boas intenções, mas que não pode renunciar à sua hombridade; que havia notado algumas atitudes estranhas de um frade de votos solenes; e que ao comentar com um noviço, este lhe dissera que tal frade teria dito que ele é um homossexual e que iria provar isso. E disse que iria para casa, no dia seguinte cedo.


O Guardião lhe perguntou quais atitudes desse frade ele havia estranhado? Disse que um dia estavam na sala de jornal e bateu o sino para o almoço, e o frade lhe teria dito ‘já vai? Espera mais um pouco!’; outra vez, ele estava caminhando e o frade veio e pôs a mão no seu ombro caminhando juntos; uma terceira vez, ele levou material para exame laboratorial onde o frade trabalhava, e este lhe disse “que bom que você veio!”. O Guardião lhe disse que, “para ser honesto, não via nessas atitudes do frade, sinais de uma ‘cantada’ ”. E acrescentou: “Mas, agora, sou eu que lhe peço. Precisamos reeducar adultos. Não vá embora. Dá uma chance a esse frade de ser mais explícito e direto. Convide-o para dar um passeio na mata; se ele for mais claro em suas supostas intenções, pergunta-lhe: ‘Você acha isso evangélico e fraterno? Se houver algum boato contra a integridade e fidelidade de sua mãe, você acha justo que alguém fosse tentar seduzi-la, com um teste de fidelidade?’ Por favor, vamos resolver isso. Mas se você decidir mesmo ir embora, eu gostaria que me dissesse o nome desse frade e do noviço; este precisa ser orientado: o outro disse um veneno, o noviço veio aplicá-lo em você, em vez de corrigir o frade’ ”.


O rapaz decidiu ir embora. E na despedida me disse o nome do frade e do noviço.

Poucos dias após a partida do rapaz, o Guardião foi ao Rio de Janeiro, em Cavalcante, para pregar na Festa de Nossa Senhora de Fátima, 13 de maio. Ao chegar, foi interpelado, de uma maneira direta e em tom meio desafiador, por um frade de votos temporários, estudante de Teologia no Mosteiro São Bento: “Por que o tal candidato foi embora?” Respondeu que não sabia exatamente e relatou toda a conversa que teve com ele.


À noite, o Guardião foi visitar uma família amiga. Chegou, mais tarde. Encontra o Vice Provincial, que era o Mestre dos estudantes de Teologia no Mosteiro; eram três estudantes. Este lhe diz, que o caso do candidato não está esclarecido: “Que ele teria dito ao frade que o interpelou, ao chegar, que o próprio Guardião havia instruído o frade de Santos Dumont, para fazer o tal ‘teste’, no rapaz.


Na manhã seguinte, o Guardião, chama o frade estudante e lhe diz que seu Mestre o informara de que o candidato lhe havia dito ter sido o próprio Guardião que incumbira o frade de Santos Dumont para o tal ‘teste’. O frade estudante desconversou e disse que o seu Mestre não entendera nada! (Evitou o confronto direto; foi insincero).


Por acaso, no centro do Rio, o Guardião encontrou-se, na rua, com o tal candidato. Este disse estar bem.


Mas, ao se despedir, para voltar para a sua casa, um outro formando de votos temporários, com o seu colega, amigo do candidato, chama o Guardião e lhe diz que eles tiveram essa ‘informação’, sim, de que ele havia instruído o frade para a ‘tarefa’; mas que a informação veio de alguém lá de Santos Dumont. E disse ter sido o mesmo noviço.


O Guardião teve uma conversa pessoal, sobre o assunto, com o frade e com o noviço; disse-lhes que confiava nas intenções de ambos, mas questionava a maneira de relacionar de um e a metodologia usada pelo outro.


 

E)      HÁ MUITOS E MUITOS OUTROS EPISÓDIOS DA CRÔNICA DESTA FRATERNIDADE...

Alguns muito pitorescos, e inimagináveis. Alguém me disse, que Tereza de Ávila dizia que “a fantasia é a louca da casa”. E quando as fantasias são coletivas, e altamente criativas, e compartilhadas? e os sujeitos agentes não têm a maturidade, a honestidade, a coragem, nem a caridade cristã de praticar a correção fraterna segundo o Evangelho?


Aconteceram maquinações das idiossincrasias do ex-Guardião que continuou na casa; aconteceram maquinações das idiossincrasias do Mestre; e das idiossincrasias dos  partidários de um e do outro; mas nem um, nem o outro, decidiu e tomou a iniciativa de um diálogo, direto, e face a face, nem no passado em que exerciam os serviços, nem no presente; e os efeitos dos que levavam e traziam ditos e expressões de outros eram nefastos e prejudicavam a harmonia e a confiança das relações interpessoais e fraternas...


As pessoas, de um modo geral, têm medo de falar, face a face, o que pensam, sentem e interpretam das condutas dos outros; comentam com terceiros; envenenam e intoxicam o ambiente fraterno em que vivem.



***  -  ***


O Guardião, interrogou um confrade: “Você recebeu um recado meu? Jesus ia, com frequência, hospedar-se em Betânia; com qual dos três – com Marta, Maria ou Lázaro – ele ia se juntar? Pois você disse isso de um confrade seu.”. A reação de defesa subjetiva e de auto justificação, era de desviar o assunto, ou de perguntar - ‘Quem te disse isso?’ O Guardião respondeu que o problema não é ‘quem me disse isso; qualquer uma das pessoas às quais você falou isso a respeito do seu irmão poderia ter me dito; a questão é você pensar e falar isso do seu irmão, e não falar com ele; outra coisa, ele já sabe que você falou isso dele; eu lhe disse, porque acho uma vergonha você falar isso com os outros e não falar com ele; procure entender-se com ele e pedir-lhe desculpas!”


***  -  ***


O Guardião, dizia: “Eu brigo. Mas eu escolho as minhas armas:

1. a verdade dos fatos e ditos, dos comportamentos – ‘o quê aconteceu realmente?’;

2. a justiça nas relações e nos tratamentos –‘você gostaria que fosse feito isso com você?’;

3. a aprendizagem – ‘que lição para o futuro tiramos disso que aconteceu?’;

4. compreensão, compaixão, perdão, reconciliação, ressurreição – ‘o Pai, por Cristo, nos reconciliou consigo e nos confiou o ministério da reconciliação. Com efeito, em Cristo, o Pai reconciliou o mundo consigo, não imputando às pessoas suas faltas e colocando em nós a palavra da reconciliação’ (2Cor 5,18-19).


Ou vivemos isso na prática cotidiana, ou nossa vida é uma mentira.”


 
F)      A GRAÇA E O DOM DO INVISÍVEL E ETERNO AMOR

Mas o que é pura graça e infinito dom do Invisível e Eterno Amor, é que, apesar de nossas mesquinhezes domésticas, de nossas insensibilidades de uns para com os outros, de fazermos pactos espúrios de uns contra os outros, na vida doméstica, somos sinais e instrumentos da “Bondade e Compaixão de nosso Deus, que sobre nós faz brilhar o Sol nascente, para iluminar a quantos estão nas trevas e na sombra da morte estão sentados e para dirigir os nossos passos no caminho da Paz” (Lc 1,78-79).


Cada um de nós individualmente, batizados e consagrados, e todos em conjunto somos sinais e instrumentos de um Reino de Deus, sempre próximo. “Já agora”, presente e atuante, em sinais, na história, individual e coletiva, mas “ainda não”, em seu esplendor escatológico.


Somos estimados e amados pelo povo, por ignorância e cegueira de uns ou por bondade e generosidade de outros; e, sempre e em ambos os casos, por pura graça de Deus, que age por mediações humanas.


Além dos sinais, dos ritos e celebrações litúrgicas e para-litúrgicas em que atuamos com esmero e decoro; a pesar de nossas misérias e mesquinhezes, fazemos gestos de bondade, de misericórdia e de amizade, e nos empenhamos em ações, atividades e movimentos civilizatórios de justiça, paz e integridade da criação.


 
G)     FINAL DO ANO DE 1971

No final do ano de 1971, o Guardião, entregou ao MP, um bilhete escrito, com 5 itens:


“1. Peço autorização ao Governo da Província para renunciar à função de Guardião;

2. Peço a transferência de Santos Dumont, minha e do Mestre de noviços;

3. A fraternidade indica o nome do novo Guardião;

4. Peço com insistência que me nomeiem para um lugar onde haja uma Faculdade de Psicologia;

5. Não quero criar problemas para o Governo da Província; aceito qualquer decisão que julgarem mais adequada a tomar, mas o último lugar onde eu desejaria estar é em Santos Dumont. ”

 

Foram aceitas as sugestões do Guardião; foi publicado num boletim informativo provincial que a fraternidade indicasse o nome do novo Guardião, a ser nomeado pelo Governo Provincial.


Em janeiro de 1972, foi celebrado no Seminário Santo Antônio de Santos Dumont, uma sessão do Definitório Provincial, no qual, entre outras decisões e deliberações, não foram aceitos os dois nomes indicados pela fraternidade local para Guardião - o ex-Guardião e um frade laical -, por razões diversas: uma, pela conduta anterior do ex-Guardião e outra, por questões jurídicas da Ordem (ele era um Irmão Leigo, não era um frade presbítero); insistiram com o Guardião para continuar exercendo seus serviços de Guardião e de Mestre dos Professos Temporários.


Unicamente, por seu voto de obediência, primeiramente ao Invisível Deus Trino Uno, manifestado por Jesus de Nazaré, e secundariamente aos legítimos superiores, contra sua vontade pessoal, aceitou continuar em Santos Dumont.

 
NOTA FINAL:

O Guardião, quando nomeado e informado pelo seu Ministro Provincial da complexa situação que iria enfrentar, ajoelhou-se diante do Cristo Eucarístico no Sacrário e lhe disse: “Senhor, tudo o que estiver errado ali, pode cair sobre mim, como um para raio; confiando e espelhando-me em Ti, - enquanto viveste numa existência corporal e num contexto histórico, ideológico, social e cultural, para fazer a vontade do Pai, - e confiando em mim mesmo, nos dons e talentos do meu temperamento, vou enfrentar o que vier!”


Ele mesmo se admirava de tanta coisa que surgia.


Há um Espírito Divino, unitivo e criativo, que sopra onde quer, que é fonte e origem da vida, que dá vida e respiração a tudo que existe; sopra também no íntimo dos corações e mentes das pessoas, nas suas consciências livres e criativas, e nos espaços das intersubjetividades.


Há também um Espírito, chamado Satanás ou Diabo, que mente desde o princípio, sutil, astuto, que está em toda parte, que seduz, mente e engana os humanos com as boas coisas que Deus lhes dá; ele está no Mundo e na Igreja, nos palácios, nos mosteiros e conventos, nas ruas, nos centros e nas periferias, nas ideologias, nos corações e mentes das pessoas, nas suas consciências livres e criativas, e nos espaços das intersubjetividades.

Seu grande aliado em sua eficácia com os humanos é a vaidade deles, o seu orgulho e ilusão de se sentir o único, a sua cobiça e ambição, a sua vontade de poder e posse, a sua autocomplacência vaidosa, a auto referencialidade disfarçada, a auto suficiência, o subjetivismo, o individualismo, a megalomania em ser o único predestinado, a compulsão e falta de auto domínio e de moderação, afinal, a falta de "sabedoria e discernimento, de conselho e de fortaleza, de ciência e de temor do Senhor (Is 11,2), a falta de fazer às outras pessoas tudo o que desejam que elas lhes façam (Lc 6,31; Mt 7,12) "

 ,

Escrito no Postulando Franciscano

São João Del Rei

Primeiro semestre de 2025

Frei Basílio de Resende ofm


 
 
 

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